Pagar menos de aluguel não é garantia de melhor qualidade de vida — mas a combinação entre preços acessíveis e bons indicadores urbanos pode revelar onde realmente vale a pena morar. Para responder a essa questão no contexto paranaense, um levantamento cruzou os valores médios anunciados para locação residencial com seis critérios: segurança pública, renda dos trabalhadores, saneamento básico, arborização, saúde infantil e progresso social.

A análise abrangeu as 22 cidades do Paraná com população superior a 100 mil habitantes. Os municípios avaliados foram: Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, São José dos Pinhais, Foz do Iguaçu, Colombo, Guarapuava, Araucária, Toledo, Fazenda Rio Grande, Paranaguá, Campo Largo, Apucarana, Pinhais, Almirante Tamandaré, Arapongas, Piraquara, Sarandi, Umuarama e Cambé.

Interior do Paraná lidera o ranking de custo-benefício

As duas primeiras posições do ranking ficaram com cidades do interior: Umuarama, na região Noroeste, e Arapongas, no Norte do estado. Ambas se sobressaem pela combinação entre indicadores urbanos satisfatórios e aluguéis relativamente baixos.

Umuarama encabeça a lista com 62,52 pontos no índice de custo-benefício. A cidade registrou a menor média de preço de aluguel residencial entre todos os municípios analisados — R$ 11,60 por metro quadrado —, nota de qualidade urbana de 72,53 pontos e renda média dos trabalhadores formais equivalente a três salários mínimos, além de bons resultados em saneamento básico.

Em segundo lugar, com 38,65 pontos, Arapongas se destacou principalmente pelo menor índice de homicídios da amostra: 6,5 mortes por 100 mil habitantes. A nota de qualidade urbana do município chegou a 64,59 pontos, com aluguel médio anunciado de R$ 16,71 por metro quadrado.

Especialistas alertam, porém, que esse cenário favorável pode ser passageiro. Beatriz Fleury Silva, professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá (UEM), explica que a menor pressão imobiliária nessas cidades ainda segura os preços, mas que esse quadro vem se alterando. Segundo ela, o mercado imobiliário já começa a impactar regiões onde o custo de vida historicamente era mais baixo, elevando os aluguéis mesmo sem contrapartida proporcional em infraestrutura ou serviços.

Maringá se destaca em qualidade urbana; Curitiba tem o metro quadrado mais caro

Maringá obteve a segunda maior nota de qualidade urbana entre os municípios avaliados, com 81,38 pontos, liderando os quesitos de arborização e saúde infantil. Com preço médio de aluguel de R$ 32,74 por metro quadrado — valor intermediário na comparação geral —, a cidade ficou na terceira posição do ranking de custo-benefício, com índice de 24,86 pontos.

A professora Beatriz Fleury Silva chama atenção para distorções no mercado local. Ela cita casos de imóveis com menos de 20 metros quadrados sendo alugados por R$ 1.500 em novos empreendimentos da cidade, o que, em sua avaliação, reflete sobretudo pressão de mercado, sem correspondência direta com o custo real do metro quadrado construído. A docente ressalta ainda que o encarecimento da moradia tem afastado estudantes de pós-graduação da UEM, gerando o que ela chama de segregação socioespacial — um fenômeno que, segundo ela, passa a atingir até a classe média.

Já Curitiba reúne os melhores indicadores gerais da amostra: maior nota de qualidade urbana (93,36 pontos), melhor média salarial entre os municípios analisados (equivalente a 3,6 salários mínimos) e destaque no Índice de Progresso Social (IPS). No entanto, a capital paranaense também apresenta o maior preço médio de aluguel residencial do levantamento: R$ 45,20 por metro quadrado.

Esse custo mais elevado da moradia faz com que Curitiba apareça apenas na décima colocação do ranking de custo-benefício, com 20,65 pontos. No mapa da análise, a capital integra o grupo de cidades com alta qualidade urbana, mas com aluguéis proporcionalmente mais onerosos.

Por que preço alto nem sempre significa melhores serviços?

A professora Maria Carolina Maziviero, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que a ausência de mecanismos de controle sobre a valorização do solo urbano ajuda a explicar a desconexão entre o preço dos imóveis e a qualidade da infraestrutura oferecida. Segundo ela, investimentos coletivos em saúde, educação e transporte público geram valorização imobiliária, mas, sem um planejamento urbano que capture parte desse ganho para o município, os benefícios ficam concentrados nas mãos do mercado, sem retorno proporcional para a população.

Com informações de Tribuna do Paraná.

Fonte: Tribuna do Paraná.