Setembro trouxe uma série de ocorrências graves de violência contra mulheres no Paraná, elevando o nível de preocupação entre moradores e autoridades. Em Maringá, no Noroeste do estado, a pediatra Gabrielle Ramos, de 34 anos, foi assassinada com facadas dentro de sua própria casa pelo ex-marido, que teve a prisão preventiva decretada pela Justiça. Na Região Metropolitana de Curitiba, em Fazenda Rio Grande, um homem mutilou a orelha da companheira com uma faca doméstica. Em outro episódio no mesmo município, um homem utilizou o próprio filho recém-nascido como refém após agredir a mãe do bebê durante uma briga.

A concentração de casos no período do feriado nacional reforça um cenário de alerta que os dados oficiais já sinalizavam. Levantamentos do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) e do painel Datajud indicam que o sistema judiciário paranaense registrou mais de 74 mil novos processos relacionados à violência doméstica, além de um número recorde de solicitações de Medidas Protetivas de Urgência (MPUs).

Outro dado relevante aponta que os registros de violência psicológica contra a mulher no Paraná cresceram a uma taxa mais de duas vezes superior à média nacional. Enquanto o Brasil apresenta crescimento moderado nessa categoria, os boletins de ocorrência por ameaça, perseguição, humilhação e controle coercitivo avançaram significativamente nas delegacias paranaenses. Especialistas alertam que esse tipo de violência antecede, na quase totalidade dos casos, as agressões físicas e as tentativas de feminicídio.

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-PR) foi procurada para fornecer estatísticas sobre violência doméstica durante o feriado prolongado de Sete de Setembro, mas informou que os dados só serão consolidados ao término do mês.

Alta nos registros indica ruptura com a cultura do silêncio

Para a jornalista, bacharel em direito e doutora em Comunicação Danda Coelho, autora de mais de doze livros sobre o tema, a presença frequente do Paraná entre os estados com maiores índices de denúncias e processos judiciais não significa necessariamente que a violência aumentou na mesma proporção. Segundo ela, o que se observa é uma mudança no comportamento das vítimas, que passaram a procurar mais os canais formais de proteção.

"Os números não aumentaram na prática, mas na teoria e na possibilidade de notificar. Aquilo que ficava retido quando as cortinas se fechavam, agora vai para as delegacias. O Paraná tem uma receptividade pedagógica muito forte. Os esclarecimentos trazidos pelos veículos de comunicação e pelas campanhas encontram nas mulheres a mensagem adequada, e elas passam a colocar a denúncia em prática", afirmou Danda Coelho.

A especialista destaca que esse movimento representa uma quebra histórica do ciclo de silenciamento. Em décadas anteriores, agressões físicas e verbais eram frequentemente ocultadas e a responsabilidade acabava recaindo sobre a própria vítima, que muitas vezes justificava lesões como acidentes ou atribuía o comportamento violento ao estresse do parceiro. Com o avanço do acesso à informação, as mulheres passaram a identificar o abuso desde seus estágios iniciais e a acionar os mecanismos legais de proteção antes que a situação se agravasse.

Independência financeira e o risco no momento da separação

Outro fator que contribui para o aumento dos registros é a conquista da autonomia financeira por mulheres entre 40 e 50 anos. Diferentemente de gerações anteriores, em que a dependência econômica forçava muitas a permanecer em relacionamentos abusivos, o acesso ao mercado de trabalho tem impulsionado um número maior de separações em situações de submissão — fenômeno que alguns estudiosos chamam de "divórcio grisalho".

No entanto, Danda Coelho alerta que o momento da separação é estatisticamente o período de maior risco para a integridade física da mulher, pois a recusa do parceiro em aceitar o fim do controle sobre a companheira pode resultar em reações violentas.

"Somos uma geração ensinada a ser profissional. Nossas mães nos educaram para termos uma profissão e sermos livres. Contudo, muitas continuavam cuidando de tudo dentro de casa além de trabalhar fora. Ao chegar à maturidade, essas mulheres olham para trás, recusam o papel de submissão e dizem 'chega'. Quando esses divórcios ocorrem, abre-se uma onda de transformações, mas também de resistência por parte do parceiro", explicou a especialista.

Endurecimento da lei e reeducação como caminhos complementares

No campo legislativo, o avanço das denúncias tem sido acompanhado por mudanças graduais na lei. O feminicídio foi incluído no Código Penal brasileiro como qualificadora do homicídio em 2015 e, em reformas mais recentes, passou a receber tratamento ainda mais severo, com penas mais rígidas e restrições à progressão de regime.

Danda Coelho compara o papel punitivo da legislação ao efeito da fiscalização da Lei Seca no trânsito: a punição serve como barreira imediata para conter o agressor e reduz a sensação de impunidade, criando condições para uma reeducação comportamental mais profunda nas relações domésticas.

Com informações de Tribuna do Paraná.

Fonte: Tribuna do Paraná.