O cooperativismo paranaense vive um processo de modernização na forma de gerir seus negócios. Cada vez mais, as cooperativas do estado têm optado por um modelo de dupla governança: de um lado, conselhos formados por representantes eleitos pelos próprios associados, responsáveis por traçar estratégias e fiscalizar resultados; de outro, equipes executivas contratadas, encarregadas das operações cotidianas. O objetivo é crescer sem perder a identidade e a proximidade com a base.
O setor cooperativista brasileiro alcançou R$ 848 bilhões em ingressos e 29 milhões de associados em 2025. No Paraná, um dos exemplos mais expressivos é a Central Cresol Baser, sediada em Francisco Beltrão, que reúne cerca de 600 mil cooperados. O presidente do Conselho de Administração da instituição, Alzimiro Thomé, percorre até 6 mil quilômetros por mês visitando cooperativas e ouvindo associados em campo.
Essa rotina intensa só é possível porque a gestão do dia a dia está nas mãos de executivos especializados. Thomé explica que, quando presidia uma cooperativa municipal, todas as decisões operacionais dependiam dele. Desde que assumiu o comando do conselho da central, em 2013, seu papel passou a ser o de captar as necessidades da base e levá-las ao debate estratégico.
Cresol: de 27 agricultores a mais de 1,2 milhão de associados
Fundada em 1996 com apenas 27 agricultores e um capital inicial de R$ 720, a Cresol é hoje um dos maiores sistemas cooperativos de crédito do Brasil. São mais de 1,2 milhão de associados, 54 cooperativas singulares e aproximadamente 1.070 agências distribuídas em 20 estados. Com o crescimento, surgiram novas demandas — inclusive de moradores urbanos e empresas —, exigindo equipes cada vez mais especializadas.
A separação formal entre as atribuições dos conselhos e das diretorias executivas nas cooperativas do sistema começou em 2015. Na Central Cresol Baser, a divisão foi oficializada em 2018. Desde então, o conselho acompanha semanalmente indicadores como demanda por produtos, volume de operações de crédito e a situação financeira da instituição.
Lar reformula estatuto para adequar estrutura de governança
Outra cooperativa paranaense que apostou na reorganização administrativa é a Lar Cooperativa Agroindustrial, de Medianeira. Em 2025, a cooperativa registrou receita líquida de R$ 23,2 bilhões, crescimento de 14,4% em relação ao ano anterior. A Lar é a quinta maior empresa do Sul do Brasil, com 17 mil famílias associadas e 27 mil funcionários.
Em assembleia realizada em agosto, os cooperados aprovaram alterações no estatuto. A nova estrutura, que deve entrar em vigor em 2027, prevê a redução do Conselho de Administração de nove para sete membros. O colegiado ficará responsável pelas definições estratégicas e pela fiscalização, enquanto uma diretoria executiva contratada cuidará das operações, sempre subordinada ao conselho.
Irineo da Costa Rodrigues, que está há 36 anos à frente da Lar, destacou que as demandas de relacionamento com diferentes públicos consomem muito tempo. Com a nova estrutura, os conselheiros eleitos poderão se dedicar mais às decisões sobre o futuro da cooperativa e ao contato direto com os produtores rurais.
Erros de gestão comprometem patrimônio coletivo
A necessidade de profissionalizar a governança também é reforçada por episódios negativos na história do cooperativismo. Nos anos 1990, as cooperativas Cotia e Coopagro encerraram suas atividades em decorrência de falhas administrativas e da instabilidade econômica do período. Mais recentemente, a cooperativa gaúcha Piá acumulou dívidas superiores a R$ 200 milhões e precisou suspender a produção.
Para o economista Ricardo Rippel, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), a profissionalização não deve se limitar aos executivos contratados. Segundo ele, é igualmente importante capacitar os conselheiros que supervisionam os negócios, para que possam tomar decisões mais embasadas e consistentes.
Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB, reforça que o modelo de dupla governança distribui responsabilidades sem retirar dos cooperados o poder de decisão, exercido por meio das assembleias e dos conselhos. Para ela, a cooperativa existe para servir seus membros e deve manter as pessoas no centro de suas escolhas.
Com informações de Tribuna do Paraná.
Fonte: Tribuna do Paraná.



