O Paraná tem um plano concreto para retomar o espaço perdido pela cafeicultura nas últimas décadas. O Plano Estadual de Desenvolvimento da Cafeicultura, elaborado pela Câmara Setorial do Café e entregue ao governo do estado, estabelece como meta ampliar a área cultivada dos atuais 25 mil hectares para 38 mil hectares até 2038. A estratégia não mira apenas o volume de produção, mas aposta na qualidade como principal diferencial competitivo.

Em vez de simplesmente aumentar a quantidade de sacas, o documento propõe fortalecer os cafés especiais de alta pontuação, investir na capacitação dos agricultores e garantir assistência técnica permanente. O objetivo é elevar a rentabilidade das lavouras e aproximar os produtores do mercado consumidor, com maior protagonismo na gestão e no controle da qualidade do produto.

De potência a coadjuvante: o declínio da cafeicultura paranaense

O Paraná já figurou entre os maiores produtores de café do Brasil, ao lado de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. No pico da atividade, nos anos 1960, o estado chegou a ter 1,8 milhão de hectares dedicados à cultura. Hoje, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), esse número caiu para 25 mil hectares, distribuídos por cerca de 180 municípios.

A virada negativa se intensificou após a geada negra de 1975, que devastou cafezais em todo o estado. A partir daí, muitos produtores migraram para culturas como soja e milho, que oferecem menor custo de produção e maior liquidez no mercado futuro. A perda de área foi, portanto, tanto climática quanto econômica.

Para o secretário estadual de Agricultura e Abastecimento, Natalino Avance de Souza, a criação de uma nova política pública para o setor abre perspectivas otimistas. "A cultura tem importância fundamental para o que chamamos de densidade de renda, especialmente quando falamos de um número expressivo de pequenas propriedades. O Paraná já não é mais um campeão em volume de produção, mas está muito bem posicionado em relação à qualidade do produto que oferece ao mercado", afirmou.

Cadeia produtiva e desempenho econômico

A produção paranaense de café está estimada em 715 mil sacas beneficiadas para 2026, de acordo com a Seab. Cerca de 80% das propriedades produtoras são de agricultura familiar. As regiões Norte e Norte Pioneiro concentram os municípios com maior Valor Bruto da Produção (VBP) da cultura.

Os números recentes mostram crescimento expressivo. Na região de Maringá, o VBP do café quase dobrou em um ano: passou de R$ 32,6 milhões, em 2024, para R$ 64,3 milhões, em 2025, alta de 97%. No Norte Pioneiro, região de Santo Antônio da Platina, o indicador subiu de R$ 731,6 milhões para R$ 869,4 milhões no mesmo período, um crescimento de 18,8%.

Walter Ferreira Lima, gerente da Câmara Setorial do Café do Paraná e presidente da Comissão Técnica de Cafeicultura do Sistema FAEP, destaca a eficiência econômica do café em relação a outras culturas. Em média, um hectare de café gera valor equivalente ao de nove ou dez hectares de soja. A fruticultura pode ser ainda mais rentável por área, mas o café leva vantagem por poder ser armazenado e comercializado em diferentes momentos, o que oferece mais flexibilidade ao produtor.

"Para o pequeno produtor, isso é importante porque ele consegue extrair um valor agregado maior de uma área menor. A fruta precisa ser comercializada em um período mais limitado", explicou Lima.

Impactos na ponta: a visão de quem produz

O engenheiro agrônomo e produtor Natan Carvalho, de Joaquim Távora, no Norte Pioneiro, cultiva café em uma propriedade de 22 hectares, na divisa com Siqueira Campos. A família atua no setor desde o início da década de 2010 e produz seis variedades de cafés especiais, acompanhando todas as etapas, do plantio à venda ao consumidor final.

Para ele, a qualidade do manejo tem impacto direto no preço recebido. "Um café de boa qualidade, com poucos defeitos e bebida dura, quando é colhido com cuidado, pode alcançar cerca de R$ 1.500 por saca. Se o produtor fizer um manejo inadequado, isso acaba pesando no preço. A perda pode chegar a R$ 200 ou R$ 300 por saca", explicou.

Atingir maior qualidade, porém, exige investimentos em maquinário e mão de obra especializada. É nesse ponto que Natan enxerga a necessidade de apoio público. Segundo ele, o acesso ao crédito ainda é um obstáculo real para quem quer expandir a produção. "Não está fácil para nenhum produtor conseguir financiamento. Existe vontade de investir e ampliar a produção, mas precisamos de condições melhores: juros menores, prazos mais longos e crédito efetivamente disponível", disse.

Políticas públicas em construção

A elaboração do Plano Estadual de Desenvolvimento da Cafeicultura representa um passo concreto na direção de uma política estruturada para o setor. A proposta, construída com a participação da Câmara Setorial do Café, contempla ações voltadas à expansão da área cultivada, à qualificação dos produtores e ao fortalecimento da cadeia produtiva como um todo. A meta é que, ao longo dos próximos anos, o café volte a ocupar um lugar de destaque na agricultura paranaense — não pelo tamanho da área, mas pelo valor que é capaz de gerar.

Com informações de Tribuna do Paraná.

Fonte: Tribuna do Paraná.