Grade reduzida e maratona de estudos nos fins de semana
Estudantes do curso técnico em Formação Docente de uma escola pública da Região Metropolitana de Curitiba descrevem um cotidiano escolar marcado pela ausência de disciplinas essenciais e pela dificuldade de se preparar adequadamente para o ingresso no ensino superior. Segundo elas, a escolha pelo curso técnico foi, em muitos casos, consequência direta das mudanças na grade curricular provocadas pelo Novo Ensino Médio — e não uma opção genuína de carreira.
Uma das alunas, identificada apenas como Mariana, 18 anos — nome fictício para preservar sua identidade —, afirma que o terceiro ano do curso técnico oferece apenas Português, Física e Matemática como disciplinas da base comum, deixando de fora componentes como Biologia, Química, História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Sem esse conteúdo na escola, ela recorre a um cursinho pré-vestibular gratuito mantido por uma ONG em Curitiba, para o qual se desloca nos fins de semana. O transporte e um tablet são custeados com recursos do programa federal Pé de Meia, voltado à permanência de estudantes de baixa renda. Ao todo, são 12 horas de estudo no sábado e mais 12 no domingo para tentar suprir o que a grade escolar não oferece.
Qualidade pedagógica e infraestrutura também preocupam
Além da limitação de conteúdos, as estudantes apontam problemas na condução das aulas e nas condições físicas da unidade escolar. Por cursarem a habilitação em Formação Docente, elas adquiriram conhecimentos sobre planejamento pedagógico e metodologia de ensino — ferramentas que agora usam para avaliar criticamente a própria realidade escolar.
Outra aluna, chamada aqui de Adriana Carolina, relata que há professores que se limitam a ler slides durante as aulas e transferem aos estudantes a responsabilidade pelo baixo desempenho. Ela também descreve problemas graves de infraestrutura na escola, como alagamentos internos e um muro em risco de colapso, cuja manutenção estaria paralisada em meio a impasses entre a direção escolar, o governo estadual e as empresas contratadas.
Especialistas alertam para crise geracional no magistério
Para lideranças do setor educacional, o quadro relatado pelas estudantes vai além da simples falta de professores. Ademar Batista Pereira, fundador do Instituto Destino Brasil e idealizador do movimento Geração Professor, defende que o país enfrenta uma crise de valorização do magistério que precisa ser enfrentada com melhores condições de trabalho e com o fortalecimento do vínculo humano no ambiente escolar. Para ele, o aprendizado depende fundamentalmente da relação entre pessoas — algo que nenhuma tecnologia substitui.
No ensino superior, o alerta aponta para as próximas décadas. Cesar Candiotto, decano da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR, destaca que projeções do setor indicam um risco grave de escassez de docentes qualificados até 2030 e 2040. Para enfrentar o problema e estimular jovens a seguir a carreira de professor, a universidade criou a Bolsa Magistério, que concede desconto de 50% nas licenciaturas para quem conclui o ensino técnico na área.
Seed-PR diz seguir diretrizes do MEC
Questionada sobre as críticas das alunas à limitação de conteúdos e às dificuldades de preparação para o vestibular, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) informou, em nota, que a organização curricular do Curso de Formação de Docentes Integrado ao Ensino Médio obedece à legislação federal e às diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC). A pasta justificou que, por se tratar de habilitação profissional com dupla certificação, o currículo equilibra a formação geral com os conteúdos técnicos específicos da área.
O abismo entre discurso e realidade
Para as estudantes que vivem na ponta do sistema educacional público, a distância entre a imagem institucional e o dia a dia das salas de aula é evidente. Enquanto o governo estadual divulga indicadores positivos e anuncia iniciativas para atrair novos professores, quem frequenta as escolas descreve um ambiente com conteúdos suprimidos, estrutura degradada e perspectivas limitadas — especialmente para quem deseja ingressar em uma universidade pública.
Na avaliação das alunas, o problema não se restringe ao desempenho no Enem ou no vestibular: a retirada de disciplinas como Filosofia e Sociologia compromete a formação crítica e cidadã dos jovens, com impactos que vão muito além do ambiente escolar.
Os nomes das estudantes foram alterados para proteger suas identidades.
Com informações de Tribuna do Paraná.
Fonte: Tribuna do Paraná.



