O setor de infraestrutura viária do Paraná enfrenta uma pressão crescente sobre seus custos: o preço do asfalto acumulou alta de 42% em 2026, segundo levantamento da Associação das Empresas de Infraestrutura Viária do Estado do Paraná (Infravia-PR). O aumento, provocado por sucessivos reajustes aplicados por refinarias desde março deste ano, eleva entre 16% e 17% o custo total das obras rodoviárias.

O impacto varia conforme o tipo de serviço. Em obras de conservação rotineira — como tapa-buracos e roçadas —, o asfalto representa cerca de 10% dos custos. Já em projetos de pavimentação, como duplicações e implantação de terceiras faixas, os derivados de petróleo respondem por 20% a 30% do valor. Nos serviços de restauração, recapeamento e reciclagem de base, a participação do ligante asfáltico pode chegar a 50% do custo total.

Risco de paralisações

O secretário-geral da Infravia-PR, Rodrigo Gawlik, alerta que a ausência de recomposição dos valores contratuais pode inviabilizar a continuidade das obras. Ele lembra que o programa estadual de conservação viária envolve cerca de R$ 4,5 bilhões e abrange aproximadamente 10 mil quilômetros de rodovias — escala em que cada ponto percentual de variação representa milhões de reais.

Segundo Gawlik, as empresas precisam desembolsar recursos antes de receber os pagamentos previstos nos contratos. Com o avanço da execução, os valores acordados ficam defasados em relação ao custo real. O fôlego financeiro dura, em média, de dois a três meses. Após esse período, as alternativas disponíveis são custosas: contratação de crédito caro, redução do ritmo das obras ou demissão de trabalhadores. Ele aponta que esses efeitos já são observados no estado, com frentes operando abaixo da capacidade, concessão de férias coletivas e cortes de pessoal.

Origem do aumento

Os reajustes foram aplicados pela Petrobras e por refinarias como a Lubnor ao longo de 2026. Desde março, a Petrobras promoveu aumentos sucessivos no preço do insumo, com alta média de 20% em abril e picos de até 22,45% em algumas unidades. Novos reajustes fizeram o acumulado superar a marca de 42% em determinadas regiões do país.

O principal produto afetado é o cimento asfáltico de petróleo (CAP), matéria-prima essencial na produção do Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ), amplamente utilizado na pavimentação de vias. Alessandro Salazar Guerra, doutor em Engenharia e coordenador dos cursos da área na UniCuritiba, explica que o asfalto ainda é o derivado de petróleo mais barato entre os insumos do setor, mas também foi impactado pela valorização do petróleo no mercado internacional — movimento acelerado pelo conflito entre Irã e Estados Unidos.

Salazar alerta para um risco concreto diante da alta: a tentação de reduzir a quantidade de ligante asfáltico nas misturas para conter custos. Para evitar esse problema, ele defende a realização de testes e ensaios laboratoriais que verifiquem a proporção efetiva do insumo em cada lote produzido. "É necessário fiscalizar", resume o especialista.

Qualidade das obras em risco

A redução da quantidade ou da qualidade do ligante asfáltico pode comprometer diretamente a durabilidade dos pavimentos, tornando-os mais frágeis e suscetíveis a danos precoces. Além disso, quando a base de uma via fica exposta por tempo prolongado — enquanto se aguarda a aplicação do asfalto — podem surgir novos danos que demandam retrabalho, elevando ainda mais os custos.

A substituição do asfalto por outros materiais, como o concreto, também não é uma solução imediata. A mudança exige projetos específicos e análise das condições do solo. Enquanto um pavimento asfáltico pode ser liberado ao tráfego em poucas horas após a aplicação, um pavimento de concreto cimentício pode exigir cerca de 28 dias para atingir resistência adequada, tornando a transição muito mais lenta e complexa em obras em andamento.

Obras no Paraná

Desde 2019, o Paraná pavimentou mais de 1.600 quilômetros de rodovias e estradas rurais e entregou mais de 500 quilômetros de vias urbanas por meio do programa Asfalto Novo, Vida Nova. Um dos pacotes de obras voltados ao acesso ao litoral prevê investimentos de cerca de R$ 1,5 bilhão, com entregas programadas até 2027. Com a alta dos insumos, obras em andamento e futuras contratações ficam sujeitas a atrasos e pressão orçamentária.

Reequilíbrio contratual

Gawlik defende que a legislação já prevê a recomposição de contratos em situações em que eventos extraordinários — como a disparada no preço do petróleo — rompem o equilíbrio econômico-financeiro dos acordos. O problema, segundo ele, é a demora na aplicação desse mecanismo: cada mês de atraso na revisão representa mais tempo com obras paralisadas em rodovias utilizadas diariamente pela população. Especialistas reforçam que a fiscalização rigorosa durante e após a execução dos serviços é indispensável para garantir a qualidade das entregas, independentemente das pressões de custo.

Com informações de Tribuna do Paraná.

Fonte: Tribuna do Paraná.